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segunda-feira, 13 de maio de 2019

O centenário da Copa América protagonizada pelos oprimidos


Era 1º de maio de 1919, cerca de 60 mil pessoas reuniram-se na Praça Mauá, Rio de Janeiro, para os protestos do dia do trabalho. Dez dias depois, começava o primeiro campeonato internacional de futebol sediado no Brasil. A terceira edição do Campeonato Sul-Americano, atual Copa América, teve como sede a cidade do Rio de Janeiro. A primeira edição (1916) foi na Argentina e a segunda (1917) no Uruguai. Prevista para o ano de 1918, essa edição teve a data alterada por conta da epidemia de gripe espanhola que provocou estragos na capital federal e em outras cidades brasileiras. Somente quatro seleções participaram desse Sul-Americano de 1919: Argentina, Brasil, Chile e Uruguai. Todos os jogos foram no estádio das Laranjeiras, na zonal sul de um Rio de Janeiro que avançava com suas políticas de modernização excludente, materializada nas reformas urbanas que expulsaram as camadas populares do centro da cidade.



Mas, afinal, que Brasil era esse que abrigou a competição sul-americana na segunda década do século XX? 
Esse era o Brasil da República Velha, da República do café-com-leite, do poder das oligarquias, do coronelismo, da concentração de renda, da ausência de direitos trabalhistas, da brutal desigualdade social, do racismo estrutural, de camponeses e operários superexplorados e oprimidos cotidianamente. É nesse contexto, de uma república autoritária (estremecida por diversas revoltas populares), que o futebol se populariza, para o desgosto dos clubes elitistas que imperavam na época. Em meio às lutas populares, o futebol passa por um processo de transformação e ganha outro significado quando praticado pelos grupos oprimidos.

Em São Paulo, palco da greve geral de 1917, equipes com forte presença de operários, como Ypiranga e Corinthians, se destacam nos torneios que antes eram dominados pelos clubes da elite paulistana. No Rio de Janeiro, um caso ocorrido ainda na primeira década do século XX, mostra que a transformação do esporte era irreversível. O Bangu Atlético Clube, fundado em 1904, não aceitou o regulamento do campeonato carioca de 1907. Esse regulamento proibia a inscrição de jogadores negros. Outros clubes do subúrbio, como São Cristóvão e Andaraí, também foram representantes dessa resistência contra as imposições da elite carioca que dominava federações e clubes de futebol. O recado estava dado: o futebol não é propriedade privada das camadas privilegiadas da sociedade brasileira.

 A seleção convocada pela CBD (Confederação Brasileira de Desportos) para o Sul-Americano de 1919 era formada em sua maioria por jogadores da elite. Um imbróglio com a Associação Paulista de Sports Athléticos (APSA) por pouco não impediu a presença dos melhores jogadores na competição. Em 1918, a associação paulista permitiu a participação de três jogadores tidos como profissionais (remunerados) no seu torneio. A CBD puniu a entidade com a desfiliação e, o que era pior, impediu a convocação de paulistas. Os jogadores em questão eram: Friedenreich (Paulistano), Amílcar (Corinthians) e Neco (Corinthians). Conversas nos bastidores garantiram a convocação do trio titular no Sul-Americano e o amadorismo elitista sofria mais uma derrota.

A campanha brasileira começa no dia 11 de Maio de 1919 com uma goleada sobre o Chile (6 x 0). Friedenreich marca três gols nessa partida de estreia e termina o campeonato dividindo a artilharia com Neco, ambos com quatro gols. Em 18 de Maio a seleção brasileira vence a Argentina por 3 a 1 e empata com o Uruguai no dia 26 de maio (2 x 2). Como Brasil e Uruguai terminaram empatados em número de pontos, foi necessário um jogo de desempate. A final foi acompanhada por um grande público em trajes elegantes, dentro do estádio, e por um número significativo de populares nos morros localizados nos bairros vizinhos. Friedenreich marcou na prorrogação e garantiu o título pra seleção. ‘El Tigre’, apelido que ganhou da imprensa uruguaia após a conquista de 1919, foi vítima de uma atitude racista dois anos depois. Antes da convocação para a Copa América de 1921, com sede em Buenos Aires (Argentina), o presidente da república, Epitácio Pessoa, do Partido Republicano Mineiro, baixou um decreto que proibia a presença de mestiços e negros na lista de convocados. O fracasso nessa competição e a campanha popular pela volta de Friedenreich contribuíram para a revogação do decreto.

O mestiço Artur Friedenreich teve uma longa carreira antes do profissionalismo se consolidar no final da década de 1930. Sua importância na trajetória do futebol brasileiro foi definida assim nas palavras do escritor uruguaio Eduardo Galeano: 
“Friedenreich fundou o modo brasileiro de jogar. (...) Levou ao solene estádio dos brancos a irreverência dos rapazes cor de café que se divertiam disputando uma bola de trapos nos subúrbios”.
Cem anos depois, dificilmente vamos encontrar um ambiente de festa e espontaneidade nas assépticas "arquibancadas" das novas arenas. Com a conversão do torcedor em consumidor, não veremos as classes populares incentivando suas seleções e comemorando gols nessa Copa América. Esperamos, como prêmio de consolação, que a alegria do futebol daquele Friedenreich de 1919 esteja presente nos gramados brasileiros de 2019.


*Citação: GALEANO, Eduardo. Futebol ao sol e à sombra. Porto Alegre: ed. L&PM, 1995.

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Che e o amor pelo futebol popular




Ernesto Che Guevara era um entusiasta do futebol popular. Algumas passagens de sua vida ilustram essa afirmação. Torcedor do tradicional Rosário Central, time de sua cidade natal, tinha como ídolo o atacante Alfredo Di Stéfano, o grande jogador argentino até o aparecimento de Diego Maradona. Di Stéfano fez história com as camisas do River Plate, Millionarios (Colômbia) e Real Madrid. Che jogava de zagueiro e goleiro (posição preferida pelo revolucionário). 

No livro ‘Notas de viagem’, Che relata uma aventura futebolística ao lado do amigo Alberto Granado. Em 1952, naquela viagem que partiu de Buenos Aires com o objetivo de cruzar a América do Sul até a Venezuela, os dois pararam na pequena cidade de Leticia, interior da Colômbia, e, aproveitando a fama de celeiro de craques que a Argentina ganhava com a ascensão de Di Stéfano, participaram de um torneio local pelo time amador Independiente Sporting Club. Na final do torneio, Che defendeu um pênalti e Granado, jogando de centroavante, marcou o gol do título. Com o triunfo em campo, conseguiram dinheiro e alimentos para seguir pela estrada.

Após a revolução cubana de 1959, Granado foi viver com sua companheira Delia em Cuba, primeiro na capital Havana e depois na cidade de Santiago de Cuba. No ano de 1963, ele conta que foi convidado por Che, na época ministro da Indústria, pra jogar um amistoso contra a equipe da Universidade de Santiago de Cuba. Segundo suas memórias, em lance de extremo perigo, Che como goleiro saltou nos pés de uma atacante pra evitar o gol dos adversários. Ao jogar futebol, Che deixava de lado sua importância política e social, concentrado exclusivamente no que acontecia dentro do campo.

Nesse mesmo ano, 1963, outro episódio mostra o apreço de Che pelo futebol: O Madureira Esporte Clube, time do subúrbio carioca, fez uma excursão internacional, embalados pelo sucesso que o futebol brasileiro alcançara conquistando duas copas do mundo (1958 e 1962), e passaram por Cuba pra jogar uma série de amistosos. Che esteve presente no dia 18 de maio no jogo da equipe carioca diante da seleção da capital Havana (vitória do Madureira por 3x2). Após a partida, Che entrou em campo, cumprimentou todos os jogadores e abriu um enorme sorriso (foto) quando recebeu a bola do jogo.